Monarcas

Entrou naquele castelo algemada e sangrava até as vestes. Foi arrastada pelos soldados por todo o interior da Realeza. Na Sala Real, o Rei e a Rainha avistaram-na e riram daquela condição piegas. Nada de Parlamento!! Gritou o Rei. Deixe-a nua!! Gritou a Rainha. E imediatamente suas vestes foram rasgadas. Observavam-na como se fossem urubus. Analisavam cada parte de seu corpo e cada chaga ali presente.

O Rei e a Rainha ordenaram o leilão daquele corpo no campo de batalha. Cada parte do corpo teria teu preço. A cabeça voltaria para o Castelo.

Canteiro das Almas

Era um pequeno e modesto canteiro onde todas as ervas cultivadas podiam dar-me teus cheiros. Adorava me sentar ao teu lado, pela manhã, compondo uma mistura de café com capim-limão, arruda, guiné. Sobretudo capim-limão. Na minha idéia, a lembrança dos cheiros poderia sustentar a minha fé durante todo o período do dia. Assim também era com o café, momento em que parava para meditar sobre a comunhão. E de fato me sustentavam. Não titubeava, quando um aperto no coração se aproximava, tão logo imaginava meu canteiro. E vinha todo o frescor das ervas e o cheiro amargo do café forte. Criava-se então uma esfera protetora vinda do reino das ervas. Bendita as palavras de Vó Maria que sempre aparecia nestes momentos.

vê se me esquece

Sobre teus julgamentos:

cansa-me saber o quanto ainda tens para ser perfeito e me ter como tormento nas tuas pestanejadas. uma coisa é vê-lo na sua labuta diária, outra é escutá-lo aos berros. a distância é algo que nos facilitou toda a impostura que tivemos, vamos agradecer por isso!!! não me vejo como tu me enxergas e na minha imagem a realidade é outra. sendo assim, tão diferente nossos olhares, porque continuar nessa guerra de patamares?!

sou uma beleza de erro e posso ser mais dura ainda na minha permissividade. minha postura é fruto de lealdade, disso não abro mão. transmito sinceridade pelo silêncio e se pra ti isso é um tanto lamento, observe tua conduta, mas não me fira na repugnação.

se todo o silêncio mantido até o momento soa como desdenho para vossa pessoa, então não te apresses, pois tuas leituras serão construídas lenta e progessivamente. mas as escritas não serão minhas e isso me envaidece.

boa sorte na tua conjuntura, e por favor, vê se me esquece.




onde estávamos...?



onde estávamos...?
ah, sim. curar-nos com a verdade. 
sensibilidade fictícia... 
não saberia para onde apontar...
mas há uma revolução no céu,
essa é a boa notícia!
não seria sensato delirar fora do tempo?!

se há prazos? não saberia lhe responder.
mutualidade real. 
dificuldade no ver, mas no sentir há simplicidade
algo que não necessita de investimentos
nem de hora, nem de lugar

então há calma
acalma

há calma
acalma

há calma
acalma

mas....onde estávamos?





Tainha

Demora tanto para considerar o finalmente
De repente, me vem você com essa ladainha
De que tudo no Sul, inclusive o outono, vira tainha!
Sólida consciência a minha!
Não travo caminho, mas não abro brechas
Não fique chocado com poucas
Sabes quais são as tuas bocas
E loucas delas acharem que são tuas!!
Construo um muro entre você e eu
e não permito escadas ou pontes
Não vejo e não escuto
Outro baque já é pranto só de pensar...

Só de pensar, dói minha espinha.
E nem tudo no Sul é tainha!!!


resposta ao poema sem título


a tua essência em meus braços pouco a pouco duraria a eternidade que fosse.
a leitura dos nossos lábios, linguagem perfeita para a comunhão de todos os outros fatores.
se a coragem do coração fosse a mesma do olhar, todo e qualquer segundo seria fusão. 


se fosse só receio seria mágico. 


respiração

daí veio a inspiração...
e a respiração que era silêncio agora expira à exaltação das trocas gasosas.

os amantes

teu cheiro figo em doce deleite, digo:
- prazer em reencontros tardios feito por nós em dias frios e refeito os nós em tântricos uivos. diferente dos sóis em noites quentes e sem vírgulas para separar o que é meu do que é teu, fazendo-nos, naquele momento, almas gêmeas. 

sem tão pouco titubear vieram as palavras ditas, verbos atordoantes ao pé-do-ouvido que fazem todo o corpo tremer. nos achamos naquela eternidade e no fim, não nos demos conta de que o tanto-instante era eterno e agora tanto faz, pois o eterno está distante. 

sensatez em pensar e dizer adeus ao que me tornava eterna. aparentemente eterna. 




sapiência, onde tu estás?!

te procurei por entre os mares, nos rochedos do verão, nas ventanias dos campos de altitude e na imensidão dos vales. te procurei entre as folhas outonais largadas pelo chão, nas asas das revoadas de um sertão, no meandro do rio senil e nas encostas de um vulcão. te procurei na dureza das rochas e na constância da rotação, no pé-de-ipê-amarelo, no cinturão de órion, no astro-rei e até em Plutão.

te procurei na percolação da água e no rosado da primavera, por todos continentes, por todas as ilhas e linhas imaginárias, na rosa-dos-ventos e no entendimento da urbanização. te procurei por entre os povos, nos mitos e na miscigenação da língua, da cor, dos gestos e de grão em grão, na diferença da distribuição de renda, de alimentos e da subnutrição.

te procurei entre os poemas, entre as crônicas e as poesias, em toda classe literária, das clássicas às de intensa orgia, nos mangás e nos sorrisos e lágrimas do dia-a-dia.
te procurei na moda, no design, na escultura, na pintura no desenho, no grafite, na percussão, na fotografia, no audiovisual, no cibernético, no mosaico, na grafia e nas ciências, todavia.
te procurei pelas religiões, pelas crenças, pelas orações, cânticos e alfazemas e ainda em outras simbologias. te procurei no tempo geológico, no tempo biológico, no tempo juliano, no tempo do relógio, na reencarnação, na metafísica e na ebulição.

te procurei em todos os bares, no gole de conhaque, nas cerveja gelada, num brinde com copo d'água, nos pontos de ônibus, nos traços vividos, no sistema viário, na política holandesa, no trago do cigarro, na desilusão, nas pequenas coisas, nos detalhes entalhados da xilogravura, nas músicas do mundo, na intuição da alma e do coração.

te procurei na razão de todos os questionamentos, nas dúvidas dos enfermos, na risada de um palhaço, no malabarismo do proletário, no marxismo e no niemeyer, na família, nos amigos, nos inimigos e na multidão.

sapiência, onde tu estás? pra te dizer a verdade, não quero te achar. quero apenas a busca de simplesmente querer te encontrar. sapiência é experimentar a utopia e verdadeiramente acreditar.

desabafo em curtas linhas

distante de tudo o que é conceitual, transporto-me da matéria adicional, descubro rupturas desdobradas em lençóis de algodão, penso na magnólia, destruo tuas glórias e todo o meu falatório é para calar a tua ausência. nem sequer descobriram a tua consistência!

desabafo em curtas linhas para cuspir na estrutura dos teus ais...maldito sistema. lamento efêmero, de boa crueldade, sentindo a consoante na nova língua. pouca sortidão e tudo passarinhará.

pra que tanta rebeldia se nos laços de cada dia cada sorriso e cada poesia se transformam em desatino de uma pistola bem mirada?! maldito sistema. tudo o que eu queria era acabar-te em minhas linhas, minhas curtas linhas putrefadas! e depois disso cair num sono tranquilo, tranquilidade nata de coragem estipulada
certa de que um dia fui eu a mal-amada...maldito sistema.

metade de um ano

o calendário aponta que já se foi a metade de um ano. 
deste ano. 
a semana passou voando...
pouco dormi, pois o sono não vem me acalentando...
meus olhos ardem, 
minha testa se franze.
era para ser a valsa-dos-meus-quinze-anos,
mas faltam dez para os quarenta e tantos...
e o sono...não comprou seu pedaço no espaço aéreo.
o que me restou foram as rimas baratas.
vieram da China. E por isso não rimam.
desdenhaRam meus sentimentos,
cada discordância plural é como um soluço,
é preciso segurar o ar por alguns segundos
antes que me engasgue em unidade. 
é uma singular importância, da qual aprendi já na minha infância.
não sei se coisa de manchetes de jornais, 
não sei se uma preocupação sagaz.

sei que se foi a metade de um ano.

pensa:

outro dia
outra hora
outro exato momento
constante aurora ou possível tormento
faz pouco do conceito e muito lamento
discorre à fio e parece um jumento
concorda sempre no calor do engajamento
esconde na lida um tanto de sofrimento
e assim passa o dia, conforme andamento.


pela manhã

insisto na tua lida amaciando-te de anedotas com bons risos à primeira hora da manhã e tudo o que não fazia sentido ficou esclarecido. agora me faz carinho e me diz ao pé-do-ouvido com clareza.

não é sintético nem prolixo, é a medida exata do meu tesão.

ser sol

ela se cansa, pensa, dança
achada numa inconstância
entre o sonho e a realidade.
coisa bruta e quase maldade...

antes fosse uma partida de futebol,
pudera ser, só não o faria
tratado sem pudor e à regalia.

era copo estilhaçado à beira da rua
os gritos compartilhavam a histeria da rotina
baixa neblina e o sol cobria toda a cidade
tudo o que ela queria era ser o sol

não há negação em ritmos tão absolutos
a paz era utopia dos tantos anos
embebidos pelo tal do amor.

whatever

torpor.
viva o paradoxo.
entre um estado e outro,
não chegue a extremos.
tome um gole de vinho.
encha a casa de alegria,
seja um titã,
faça da rua, sua vida.
sintonize-se.
e taca o foda-se.
(no bom sentido)

coisa que
quando for
onde estiver
seja assim
amor
paz
água
verde
sorriso
gritos
dança
fogo
sol
terra
sal
pé
iceberg
música

...whatever...
dura na queda
morra de rir,


para chico.



normal

onde foram parar as minhas botas??
não pare de pensar, vou buscar meu capelo e ver o que faço com o meu diploma...
não sei o que pendurar na cabeça: se idéias ou fatos. 
essa lata de coca-cola vazia...
esse maço de cigarro na pia...
essa torneira que pinga de noite e de dia...
esse telefone que não toca...
essa cruz na tua porta...
essa insônia que insiste...
essa segunda que resiste...
essa tarde que sufoca...
e tudo está para lá de normal.


à tua risada alta ou algo parecido

ê noite de segunda-feira que em mim adentra e não sai mais. tão pequenina tormenta de idéias...onde me fora tão clemente? pensei por um instante que o silêncio pudesse me deter pelos desenhos, mas nada me tira da cabeça a tua risada alta. o que foi que fizestes com minha a digna esperança? penso por quantas vezes ainda você aparecerá em minhas lembranças.
na minha calma, há força e sensatez e, por vezes, uma possível estupidez. não sei se deus ou destino, ou outra força qualquer... Talvez o pensamento produzido por uma série de cansaços num período intermitente, numa conduta indiferente da vida para comigo. toda vez me deitava, lia, orava, chorava na fonte do meu pensar e pedia aos astros mais que completos na trajetória de sua existência que me levassem daqui para um outro lugar, pois em tom modesto não me via em cena citadina local. queria era ganhar o mundo, percorrer mais trechos e me deitar embaixo de uma árvore centenária para da sua sombra me banhar.
e eis que você veio, chegou bem no meio do meu anseio e me pôs em dúvidas sem sequer me questionar se poderia arrebentar com minha alma ou se tudo posto seria calma, ou se abrigo, ou se trabalho, ou se exagero, ou se simplesmente...era coisa da minha mente. não sei se em grandes alturas, não sei se plaino, não sei se água, só sei que sonho com algo parecido com a tua risada.
então tudo se arrebatou numa condição sensata. nada de serenata! - gritei. tudo passou de imaginação, daquelas enormes existências das teorias psicanalíticas e nenhuma delas transformaria a realidade nem em passos largos... pois depois disso, sentei-me confortavelmente e deixei vagar a minha mente em cada ponto do inexato sistema límbico.
assoprei com toda força àquelas idéias toscas que me encaloravam todo o corpo e numa finita clausura deixei escorrer o suor pelo rosto amenizando toda a corrente dos mais antigos planos. assim, depois de tudo ir, recolhi todos os desenganos, abri o caderno vermelho, tracei linhas paralelas e desenhei o movimento do que é lento, quieto e solidez. daí busquei coragem para acabar com tudo de vez e, não obstante, veio uma inspiração sagaz, uma vontade de dizer, uma coisa de escrever e as cenas do teatro não paravam de me chegar...

imperativo

apressa-te nesta calma
onde tudo em minh'alma
tem seu cheiro e seu sabor

venha nesta firmeza
onde tudo com clareza
é ouvido e sentido com amor

chega de platonismo
sou tua em infinito
é chegar e me tomar de anseios

traga-me certezas
dou-te meu ser em cestas
tens no prazer, todos os meus devaneios

meus que vieram para os seus
com melodia transcendente
embaixo d'água e por todo o céu servente

me queira.

outros modos

quero viver fora da minha cabeça por uns tempos...
sentir mais perto meu coração aos olhos
deixar pra lá a semiótica e depois voltar sem pé nem mão.

transferir cada parte do corpo no corpo da arte
tomada de imensidão azul e camomila
feita de poema e geografia
cantada em jardins suspensos, repletos e harmônicos
digna de amar cada pedaço teu em plenos sonhos
ver a realidade nos chamar ao leste alaranjado
num calor fora do comum
confrontando a inércia do rápido movimento
seguindo o silêncio, a lentidão e a quietude.

...leve...
quase como num tai chi chuan...