diálogo com o tempo

pedi para o tempo dar um tempo porque o meu tempo já estava sem tempo. o tempo reclamou que o tempo foi inventado por quem não tinha tempo de se preocupar com o tempo. pedi para o tempo desconsiderar o tempo que passou e parasse o tempo que ainda não chegou. o tempo me olhou como sem tempo para argumentar e temporariamente me disse que estava sem tempo. o tempo saiu como num segundo e eu fiquei horas a pensar. alguém me disse que perderia tempo conversando com o tempo. deveria ter escutado. o que me resta agora é o barulho do ponteiro do relógio tic-taqueando na minha cabeça para eu acordar sem reclamar. 

amo-te

o que dizer numa hora dessas??
é sentimento atravessado por vielas estreitas.
útero que fere
fome na áfrica
ano eleitoral
desgraça em rede

há de passar
sustenta tua alegria
mesmo na dor do dia
que insiste em demorar


pior do que o perto
é o todo
pior do que o todo
é não acreditar.
não se pode confessar
sem que doa a aorta
não se faz um por-do-sol
com tempestade

amo-te...









FOZ

turbilhonaram-me de provocações!
olhei ao redor e...rios dissecantes!
meandraram-me de sons calmos
era só o barulho das águas...

faltou-me foz...

encontrei-me deltáica,
embolei-me nos proveitos das areias.
esfoliaram meus culotes!

redobrado

foram alguns minutos em silêncio redobrado. tudo parecia estático. era um silêncio inpensado, um mero silêncio redobrado como se fosse luto pleno pela morte das idéias. todo aquele esplendor das palavras, todo aquele sentimento raro de um quarto explodiu num silêncio redobrado. 

fechou teus olhos, inspirou tuas mortes, rezou inconscientemente, perdeu-se no vácuo. 

voltou para a sua vida acelerada sem deixar o silêncio redobrado. dali em diante, viveria em silêncio redobrado. era sua forma de dizer pequenas sutilezas aos sórdidos pensares alheios. conspirava contra todos, mas mantinha-se num silêncio redobrado. 

caminhou no tempo vivido, suspirou aliviado, sorriu mediocremente, indagou-se das certezas.

sentou à mesa, preparando seu apetite com os olhos. seu paladar degustava aos cheiros. seu olfativo respirava as cores, mas em nenhum momento falou sobre suas sensações. manteve-se num silêncio redobrado.

eu

eu vivo aquilo que vivo
sou aquilo que vivo
vivo aquilo que sou
e entre uma coisa e outra
bebo poesia, fumo fotografia e viajo nas entrelinhas

ipê-amarelo

era sol, era suor,
sentei-me embaixo daquele pé-de-ipê amarelo
foi quando vi você passar com seu sorriso pela primeira vez
depois disso meu mundo se fez mais ipê e todo amarelo me lembra você...





um respaldo

Quanto sonho nessa calma
Quanta calma nesse sonho
Se sonho, se calma,
se todo operante desalma
pra mim é tudo um recomeço
e todo recomeço é um novo fim
e um novo fim é assim
começa, finda sem não sem sim
a coragem desperta a luta
labuta, labuta, labuta
e o cor de rosa do quartzo
é coisa bruta
se lapida, supera
e todo sonho é calma
e toda calma cabe nesse sonho
sempre em alerta (para não cair em pranto)
mesmo santo, não confio
sou mais eu no meu caminho.

conversa pra jumento dormir

Agora gira mundo que muito insiste em girar, mas por num momento instrospectivo pensou em parar...

Porém, veio a Lua e lhe disse:
- deixe de conversa e continue a labutar, se tu não girar, como é que esse mundo vai ficar?! E eu, como ficarei?? Olha ao teu redor e veja quantas belezas, deixe de ser egoísta! Pensas que é tudo por conta do seu girar!! Oras...

Então, chegou o Astro e ordenou com todas as suas chamas:
- Ninguém há de parar!! Aqui quem manda sou Eu e teu núcleo há de trabalhar!!

Foi aí que a Terra gracejou:
- Você me ordena e eu respondo aos teus mandamentos, mas aqui dentro de mim, tem muito jumento!!
Pois, não adiantas nesse Minúsculo Reino Teu querer ordenar, se em pobreza meu núcleo há de arrebentar!!

- Pouco importa as consequências, nosso trabalho tem que continuar, se o núcleo não se aguentar, paciência...teremos apenas mudanças...e...bem, os jumentos de que tanto reclama, irão evaporar. Portanto, não descanse, até o rebento concebido, pois das heranças geológicas, já temos muitos motivos. Creio que teu surto deve-se por ingestão de gás metano. Disse o Sol para a Terra, com seu caloroso discurso sobre continuidade.



tanto

tanta coisa verdejante
descolorida pelo cinza
tanta terra deslumbrante
sem apelo ao acesso
tanta gente colorida
sorrindo feliz da vida
tanta cor na lida
escondida pelo tanto
de apenas alguns 'santos'
que tanto alopram
aos poucos prantos
em tão tanto tanto.

sem querer

hoje, eu ali...
nasceu um poema
quase sem querer
tava em silêncio e 
nada para fazer
era eu só pensamentos
e tudo o que queria
era que chegasse a noite
para poder te ouvir
você veio
e sem reconhecimento
foi-te embora tão logo chegou
a fala destoa da realidade
e agora pouco me importa se há rima
ou métrica, mas sim se há alma. 


quintal de casa

 ver...
sentir...
respirar fundo...
contemplar...
agradecer...
abençoar...
fechar os olhos 
e ouvir o silêncio 
que vem do vento, 
dos pássaros, 
das árvores, 
das águas...


...que janela...

quintal de casa


diário de campo

da antena vê-se entre as neblinas, a atualização do novo programa. parto para cima querendo mais perto do céu ficar, mas o que preciso é olhar para as ruas e visualizar o quanto minha vista aguentar...toda aquela pequena cidade e longe do modo de vida de ser caipira, eu apenas avisto todas as vias e me pergunto do dia-a-dia daqueles morros e montanhas que deslizam nos caminhos de quem os fita. nada parece estático e muito menos o é, mas por enquanto está tudo dentro do prazo e caminhando com aquela fé de um boa metodologia de trabalho. 

sair à campo é deixar-se revestir de conceitos para que seus olhos vejam com mais propriedade aquela paisagem que nos movimenta e compreender que o inverso também é afirmativo. 




exata razão

justifica tua prosa em meio a tanta rosa
pacifica enquanto consegue e segue
umidifica tua garganta santa e canta

não há outra condição
ser é ser, exata razão
o mundo gira mundo
e assim é o mundão!

purifica teu caminho e reza
desmistifica tua reza, preza
não tem fim, desconstrói
tudo em mim.

descabelados

digitalizadas impressões em eufórico diálogo
ele ri pelo teclado
e silencia tua festa
não dita regra alguma
apenas vive teus momentos
ah, sossego dos vinte e poucos anos...
verdadeiro tormento, me lembro:
ri por fora, indaga-se por dentro e lamenta-se no escuro
depois all star, poça d'água e um maço de cigarro vermelho

simples e tocante
saudades de acordes mirabolantes
acordes que me tocam latentes

não preciso de rima pra dizer o que sinto,  pois não passa de um devaneio...
quero me mostrar ao mundo minha poesia sem rima e dizer porque tu veio!

diria mil vezes até chegar em ti o meu recado
deixaria a estrada livre para teus cabelos descabelados e beberia destilado fumando meu prateado
para de longe te olhar e ouvir teus acordes mirabolantes
acordes que me tocam latentes, que me deixam (in)conscientes...

a distância dos pensamentos é uma condição sem idéias,
poucas fazem o papel de dizer o que pensam. a grande maioria pensa,
apenas pensa!

não troco nenhum outro descolado, gosto de te ver assim com teus cabelos descabelados soltos ao vento e com uma seriedade debochada...sempre bem acompanhado de um céu e mar na face...

saudosa memória...




aqueles dias de cão...

Aqueles dias de cão...
você mal se reconhece na frente do espelho
vê tudo em poucas cores
usa apenas teu faro

e late para ver se alguém te entende.

reação alcoólica ao amor

reação alcoólica ao amor
eis que perdeu-se a magia
eis que de nada adiantou
seu dia cheio de amor

mansamente amarela
veio ela me dizer:
- sim!!
boca nua sem palavra tua
foi o beijo que existiu na rua
coisa que veio e teve...
ah, bendita reação alcoólica!!!

Chuva

e o dia chove em minha alma
chove com alegria
de ter sido apenas dia
desconstruiu meu castelo
com as gotas de chuva
chegou sem pedir licença
com seu sorriso veio pra ficar
buscou-me ao movimento do silêncio
de perto, longe ou fora
nunca sem descontentamento
sobre rosas me deito
pela janela tudo é cinza
verde é aqui dentro
e no mais é tudo paz.


Coisas do Tempo, José

Caiu uma laranja do pé, José!
Veja...que cor, está no ponto de consumi-la!
Vamos, abra!
Como? Com os dentes, uai!

Olha José, uma flor de limoeiro!
Quanta cor e que cheiro!!
Vê. Coisas simples?

Veja José, a estrada está ali
só esperando a gente sair!
Não, não é a hora
Não é o momento

Coisas assim, coisas do tempo....